Após concluir o curso de cinema, Trier lançou seu primeiro filme de longa metragem, “Elemento do Crime” (1984), no qual deixou claro que ainda mantinha grande atenção às questões técnicas. O roteiro, escrito por ele, conta uma história de suspense policial passada na Europa, cheia de simbolismos, e retratada por imagens que criam um clima de frieza e estranhamento do começo ao fim da história. Seus enquadramentos, luzes e efeitos especiais eram milimetricamente sobrepostos a fim de obter o que o diretor desejava, e com o resultado final Trier conquistou o Prêmio Técnico no Festival de Cannes, juntamente com o reconhecimento inicial do público e da crítica.
Nesse filme, Trier começou a abordar o tema da hipnose, assunto que viria retratar novamente em seus próximos dois filmes de longa metragem. Ele alega (2005, p.71) que esse é um tema que sempre lhe exerceu fascínio e medo, considerando que o próprio cinema é uma mídia com efeitos hipnóticos.
Em 1987, Trier lançou o filme “Epidemia” onde, com uma produção mais modesta, mas não menos provocativa, apresentou um roteiro metalingüístico. Nele dois roteiristas, interpretados pelo próprio Trier e seu co-roterista Niels Vorsel, elaboram às pressas a história de um filme de suspense sobre uma epidemia que devastava certo continente. A imagem final do filme ainda demonstra a atenção que o diretor dedicava ao tratamento das imagens, mas a falta de recurso da produção fez com que já sejam percebidas pequenas inserções da câmera de mão, e enquadramentos mais livres, ambas características que Trier viria explorar amplamente mais tarde.

O tema da hipnose aparece novamente com uma personagem que passa por uma sessão, e vivencia as dores de estar dentro do roteiro escrito. Para gravar essa cena, Trier contratou um especialista em hipnose e uma médium que, de fato, foi hipnotizada em frente às câmeras. A assustadora cena retratada no filme mostra a realidade do que aconteceu no set, e já indica o interesse de Trier em tentar aproveitar cenas ocorridas ao acaso, característica bastante presente em seus trabalhos futuros.
O filme “Epidemia” não alcançou o reconhecimento de seu antecessor, entretanto, em 1991, Trier voltou a chamar a atenção de Cannes com o longa-metragem “Europa”. No filme, que se passa na Alemanha Pós Segunda Guerra Mundial, uma trama de suspense e romance se desenrola em meio à produção técnica que o próprio Trier definiu como o ápice de sua obsessão por controle da imagem (2005, p.66). Por essa produção, o diretor recebeu no Festival de Cannes de 1991 o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio de Melhor Contribuição Artística.
Na história do filme “Europa”, a hipnose deixou de ser apenas um tema abordado, e foi utilizada de forma ativa. Na cena inicial, um narrador conduz em “off” o expectador e o personagem ao ambiente e época em que o filme se passa, apresentando durante alguns minutos, além da sua voz, apenas a imagem de um trem em movimento e o som do mesmo nos trilhos.

Segundo Faria (1986, p.129), o estado hipnótico se defini como um momento de sono reflexo, em que o cérebro entra em estado de repouso gerado pela estafa conseqüente da repetição contínua de certo estímulo visual ou auditivo, mas que ainda pode manter contato consciente com o mundo externo. Dentro desse estado a pessoa se torna mais propensa à sugestão, ou seja, permanece mais concentrada e entregue a experiência que lhe for proposta.
Portanto, de acordo com a definição, com a adoção dessa seqüência o diretor pode introduzir de forma menos abrupta o expectador à trama, e torná-lo mais concentrado ao filme. Essa conclusão foi reafirmada por Martins (2004), ao dizer que: “Lars Von Trier propõe ao espectador um jogo (...). Paulatinamente, instila-se uma ilusão imbuída de um tênue controle, embora crescente e desenfreada nas suas conseqüências.”