Lars Von Trier

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Dogma 95 e Trilogia Coração de Ouro

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Diante da feliz premissa lançada durante as gravações de “O Reino”, surge em 1995 o “Dogma 95”, movimento que Trier e seu colega Thomas Vinterberg criaram, e que, nada mais é do que uma formalização de parte das regras que o diretor estava se propondo em um manifesto. Trier passa então de um cinema excessivamente técnico para um cinema quase “despido”, purista, e seu exercício passa a ser extrair dessa fórmula a emoção que ele afirma priorizar (2006, p.179).

Ele ainda afirma que, por trás dos dez mandamentos do manifesto, que exigem desde a utilização da luz e som natural dos ambientes, até a não figuração do nome do diretor nos créditos, há uma vontade de resgate da inocência perdida do cinema, algo que ainda seja vigente mesmo sem a explosão de efeitos especiais que se vê nos filmes de hoje. Diante desse discurso, o público, a mídia e os críticos se dividiram em grupos de adoração e repulsa, que até hoje põe em questão a validade desse movimento.

Explicando o movimento Dogma 95, e os diretores o seguem, Schepelern (2005) diz:

“Há mais do que apenas um toque de masoquismo nessa forma de fazer filmes. A tortura ao qual eles se expõem deve ser vista como uma forma de forçar resultados que quebrem os padrões. Os artistas do Dogma se punem das formas mais difíceis, na expectativa de que isso os levará a libertação artística. Enquanto a maioria se adapta ao convencional, e trabalha de acordo com regras já estabelecidas, von Trier força si mesmo a experimentar novas formas de trabalho.”

Nessa época, Trier mostra que, assim como ocorreu em sua série “O Reino”, com a apresentação da trama através de imagens que não são transparentes aos espectadores, se ressalta a história e os personagens que, em seu caso, são quase tão despidos quanto a imagem que os apresenta.

Em 1996, Trier trouxe às telas o drama romântico “Ondas do Destino” e, contrariando as expectativas, adotou durante as gravações apenas algumas características das leis do manifesto recém lançado. A câmera de mão foi utilizada em quase todas as cenas, e a iluminação se apresentava quase sempre natural. Segundo Trier (2005, p.166), a interferência causada pelas técnicas adotadas nos expectadores se mostrou eficiente, pois evitou que o roteiro se tornasse demasiadamente romântico. Independente dessa questão, o filme todo registra seus personagens de perto, com uma série de closes fechados, e com uma certa imagem “crua” que favoreceu o envolvimento do público que, em geral, se emocionou profundamente com as questões da trama.
Ondas do Destino

 

 

O filme “Ondas do Destino” foi o primeiro da trilogia “Coração de Ouro” a ser lançado, e se baseava em um conto de fadas dinamarquês de mesmo nome que fez parte da infância de Trier. No conto, uma menina se sacrifica para ajudar os outros acima de tudo, sem pensar em si própria. Por esse filme, Trier recebeu inúmeros prêmios, inclusive o grande Prêmio de Cannes em 1996.

 

A partir daí, a câmera de mão que estava sendo utilizada até aquele momento devido a seu aspecto simplista, passa a ser adotada em quase todas as próximas obras do diretor. Trier afirmou (2005, p. 203) que o resultado das gravações se tornaram mais gratificantes, lhe oferecendo maior liberdade de criação no set, e um melhor relacionamento com os atores. Com a câmera em punho, Lars passou a ser mais do que um criador, que apenas captura o fato, se tornando também um personagem que narra e mostra ao expectador o que, para ele, é importante para sua história acontecer. Seu olhar acompanha a trama e caminha lado a lado com os personagens, um fator que, dentro dessa nova dinâmica de trabalho, proporcionou que os atores trabalhassem mais livremente, podendo improvisar. Ele passou a requisitar que os mesmos extraíssem o máximo de suas emoções e, com a câmera, permaneceu sempre atento para captar cada momento interessante.

Em 1998, o diretor lançou o filme “Os Idiotas”, segundo filme da trilogia “Coração de Ouro”, e seu primeiro fiel ao Manifesto Dogma 95. Com um roteiro provocante, Trier mais uma vez estarreceu o público e a crítica mostrando que sua proposta dentro dos mandamentos poderia, de fato, resultar em uma história interessante e coesa. Ele alegou (2005, p.266) que essa forma de trabalho só é possível, pois ele, desde o começo, sempre se mantém fiel a seus roteiros, incluindo nos filmes apenas algumas poucas cenas interessantes que forem improvisadas pelos atores no set.

Os IdiotasPara esse trabalho, a câmera digital foi a melhor solução encontrada por Trier, pois permitiu a captação de um número muito maior de imagens sem a preocupação de um grande aumento nos custos dos filmes. Com isso, as montagens “picotadas” que o diretor vinha fazendo desde “O Reino” passaram a ser ainda mais constantes, se tornando uma característica bastante presente no repertório visual de suas obras. Trier não adota nelas a continuidade clássica, vista na grande maioria dos filmes, e definida por Xavier (1983, p.20) como uma combinação programada dos diferentes enquadramentos que oferece ao expectador a sensação de transparência e movimento corrente, em que ele obtém sempre o melhor ângulo de cada plano da ação. Em seu caso, as cenas aprovadas são justapostas, porém, não necessariamente respeitam uma continuidade transparente, o que pode exigir inicialmente do expectador uma maior concentração, e resultar muitas vezes em uma maior entrega à história.

 

 

“Dançando no Escuro”, o último filme de sua trilogia “Coração de Ouro”, foi lançado em 2000 e, contrariando novamente as expectativas dos críticos, não seguia aos rígidos mandamentos do Dogma 95. O filme contava um musical dramático e, Trier, afirmando que cada um de seus trabalhos pede sua própria estética, nesse caso chegou a usar até 100 câmeras fixas simultaneamente para captar variados ângulos das cenas cantadas.


Mesmo com essa excentricidade, o diretor em nenhum momento perdeu seu enfoque no conteúdo.Dançando no EscuroNo roteiro, a personagem Selma, vivida por Björk, é uma imigrante tcheca que mora nos EUA, está perdendo a visão e trabalha para conseguir dinheiro e operar seu filho que tem, por hereditariedade, a mesma doença. Diante dessa situação, a inocente personagem, apaixonada pelos clássicos musicais americanos, se abstrai de sua vida sofrida sonhando com as cores e sons dos mesmos. Nos momentos em que são retratadas as cenas da vida da personagem, a câmera de mão, as imagens tremidas e os cortes secos já vistos nas obras de Trier voltam a atuar, criando um clima próprio de grande frieza para aquela realidade. Entretanto, no mundo de sonhos, todos os ângulos das cenas de dança transbordam cores aos olhos dos expectadores, que sentem o alívio momentâneo da personagem, e saem compenetrados do mundo apagado de Selma.

 

Esse filme foi considerado por muitos um dos mais dramáticos já feitos, pois com sua proposta de closes, personagens carismáticos e regras de dinâmica claramente estabelecidas, Trier acabou levando novamente o público a se envolver de uma maneira muito profunda com a trama. “Dançando no Escuro”, aclamado pela crítica, recebeu o prêmio de maior prestígio do Festival de Cannes: a Palma de Ouro.

 

Por retratar a vida da personagem nos EUA, sem nunca ter estado nesse país, Trier recebeu duras críticas da mídia. Alegou que sua vida, assim como a de grande parte das pessoas do mundo, é composta em 70% por elementos difundidos pela cultura americana, e por isso não temia apresentar em seu filme uma faceta dessa sociedade, acreditando que essa só se tornaria mais interessante por possuir as características e erros da visão de um estrangeiro.

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