Lars Von Trier

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Trilogia “EUA – Terra das oportunidades”

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Em 2003, Trier, que se disse tentado pelos críticos (2003), lançou mais um filme cujo roteiro se passa nos EUA: “Dogville”. Novamente se propondo novas regras, o diretor criou o conceito que chamou de “filme fusão” (2003), onde uniu elementos da linguagem da literatura, do cinema e do teatro. Para criar o conceito principal do filme, afirmou (2005, p.243) ter se inspirado no “teatro épico” de Brecht.

Segundo Backes (2006), com o “teatro épico”, Brecht pretendeu opor-se ao “teatro dramático”, que segundo ele, conduz o espectador a uma ilusão da realidade, reduzindo-lhe a percepção crítica. Assim, ele criava recursos que causavam um “efeito de estranhamento”, que tinha como objetivo estimular o senso crítico, tornando claros os artifícios da representação cênica e destacando conseqüentemente o valor do texto.

 

 

Aplicado em Dogville, esse conceito ofereceu grande destaque à trama, pois Trier chegou ao ápice de remover todo o cenário e apenas demarcar o chão com a planta da cidade em que os personagens convivem, inserindo poucos móveis e luzes cenográficas. O público, diante disso, tem um estranhamento inicial por visualizar apenas atores abrindo portas imaginárias, e as ações de pessoas que supostamente estão em outros ambientes, mas que aparecem a todo o momento por não haver paredes no local. Contudo, após alguns momentos, toda aquela cidade claramente se remonta na mente de cada um que a visualiza, e a trama passa a ser acompanhada de perto, sem os desvios de atenção que os cenários podem provocar.

Dogville

Martins (2004) definiu o cinema de Lars Von Trier da seguinte forma:

“Não se trata de um cinema ilusivo, nos moldes do cinema clássico, mas, distintamente, de uma narrativa cuja sugestão ilusiva permeia a dramaturgia, os personagens e o próprio ato de assistir ao filme. O cenário de Dogville (ou a sua ausência) é uma clara reiteração dessa característica. Ali se apresenta Dogville - uma cidade pacata. Ali o espectador deve ver, imaginar ou supor Dogville. Trata-se de um jogo aberto. O mesmo que permeava a imaginação da personagem de Ondas do Destino ou, do grupo de amigos que se fingia de Idiota, ou, ainda, da mútua desconstrução e representação da ilusão propiciada pelo gênero musical como ocorre em Dançando no Escuro. A regra é simples: o diretor nos convida a acreditarmos em algo que ele explicita como ilusório.”

“Dogville”, primeiro filme da trilogia “EUA - Terra das oportunidades”, conta uma história dramática sobre vingança, em que o diretor discute friamente aspectos da formação das sociedades, suas relações e mazelas. Cada vez mais caricatos, seus personagens são expostos ao público de forma íntima, criando um vínculo com o mesmo que, se hipnotiza pelo jogo de quebra de paradoxos técnicos e morais, e desaba geralmente em uma sensação subversiva. Essa experiência pode ser agradável para alguns, e causar repúdio a outros, mas de um modo geral atinge o objetivo do diretor de provocar a reflexão diante da história.


Manderlay

Diferente de suas seqüências de filmes anteriores, na trilogia “EUA” os filmes são realmente continuações de uma mesma história, sendo que o segundo filme “Manderlay” foi lançado em 2005.

O último filme da trilogia, com o nome previsto como “Wasington”, ainda não foi lançado e, segundo Trier, só será feito no momento em que ele estiver interessado em gravá-lo. Isso porque o diretor, que diz ter passado sempre por problemas emocionais, tem reduzido sua carga de trabalho devido a uma crise de depressão.

Enquanto isso, o público pode acompanhar seu trabalho em projetos menores, sem nunca saber ao certo o que poderá aparecer em seu próximo lançamento.

Referências Bibliográficas

Esse texto é parte integrante do TGI "Website do Diretor Lars von Trier", realizado em 2007 como trabalho de graduação do curso de Desenho Industrial com ênfase em Programação Visual da Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo) pela aluna Paola Prado Mouro. Segue abaixo as referências citadas no texto:

 

BACKES, Marcelo. O legado de Brecht: Acerca de Brecht.
Goethe-Institut, 2006.
Disponível em: ww.goethe.de/ins/br/sap/prj/bre/ldb/ptindex.htm
Acesso em: 23 out. 2007.

DUBOIS, Phillipe. Cinema, vídeo, Godard.
Tradução: Mateus Araújo Silva.
São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

FARIA, Osmard Andrade. O Que é Hipnotismo.
São Paulo: Brasiliense, 1986. (Primeiros passos, 15).

MARTINS, Pablo. Da hipnose ao abismo moral.
Mnemocine. 2004.
Disponível em: www.mnemocine.com.br/cinema/crit/dogville.htm.
Acesso em 17 out. 2007.

SCHEPELERN, Peter. The King of Dogme.
Danish Film Institute, 2005.
Disponível em: www.dfi.dk/tidsskriftetfilm/dogme/king.htm.
Acesso em: 1 nov. 2007.

TRIER, Lars von. Release oficial do filme Dogville.
Atalanta Filmes, 2003.
Disponível em: www.atalantafilmes.pt/2003/dogville/Dogville.doc.
Acesso em: 10 set. 2006.

______. Grandes Diretores de Cinema.
Entrevistador: Laurent Tirard.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

______. Trier on von Trier.
Entrevistador: Stig Björkman.
Londres: Faber & Faber, 2005.

XAVIER, Ismail. A Experiência do Cinema: antologia.
2 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1991.